o livro
Vencedor do prêmio Nobel de Literatura em 2012, Mo Yan escreveu Mudança após terem lhe encomendado um texto sobre as grandes transformações ocorridas na China nas três últimas décadas do século xx. Para isso, porém, em vez de descrever os eventos políticos e sociais que marcaram o país, Mo Yan nos oferece um romance autobiográfico — ou uma autobiografia romanceada — que traça, através de fragmentos de memórias, a vida do autor e do povo chinês a partir da morte de Mao Zedong, em 1976, quando tudo parecia prestes a ruir, diz Yan, e se percebeu que tudo continuaria a mudar radicalmente.
Com um texto límpido, Mo Yan conta as lembranças de sua infância na remota aldeia de Gaomi, na província de Shandong; do tempo em que abandonou a escola para trabalhar na agricultura e, mais tarde, em uma fábrica; do período em que integrou o Exército Popular de Libertação; das primeiras publicações de seus contos até chegar aos tempos mais recentes, após sua consagração como um dos principais nomes da literatura chinesa. Protagonizados por personagens memoráveis como o professor Liu Boca Grande e seus colegas de classe, o desajustado He Zhiwu e a bela Lu Wenli, os episódios vão construindo uma “história do povo”, uma visão de baixo para cima, de um país em constante mudança.
Do mesmo modo que se concentra em pessoas comuns, Mo Yan se detém nos detalhes que mostram a olho nu a passagem do tempo. “Naquela época, comer aqueles jaozis de Xidan já era algo de que se gabar em casa”, ele diz, se referindo aos tradicionais bolinhos chineses em formato de meia-lua. “Hoje em dia, ninguém mais quer saber de jaozi de máquina, e os restaurantes fazem questão de colocar um aviso garantindo que a iguaria é feita a mão.” Esse procedimento parece encontrar seu maior símbolo no velho caminhão Gaz 51, que percorre a narrativa do começo ao fim e que, de um bem capaz de dar enorme status ao homem que o possuísse, torna-se um objeto de cenografia em vias de explodir como se fosse um coquetel molotov nas gravações de Sorgo vermelho (1987), o filme baseado num livro do próprio Mo Yan que o celebrizaria em seu país.
Conhecido internacionalmente por seus romances As rãs (Companhia das Letras, 2015), Tanxiangxing [A morte do sândalo] e Shengsi pilao [A vida e a morte estão me deixando cansado], Mo Yan já foi comparado pela crítica a autores como Charles Dickens, William Faulkner e Gabriel García Marquez. Em Mudança, é possível compará-lo ainda a Annie Ernaux e a sua proposta de captar as reverberações íntimas da história social. Apesar disso, tais aproximações têm seus limites. Aqui, o leitor está diante de um olhar sensível ao acaso, de uma voz que não busca estabelecer contrastes e oposições.
Desse modo, escapando às expectaticas de uma visão ocidental, a sucessão lotérica dos fatos, neste livro, revela uma inusitada e bem humorada abertura do narrador para o que a vida lhe reserva. Mas que não se entenda essa atitude como passividade, e sim como uma espécie de observação atenta, um traço particular do autor que talvez já estivesse guardado desde este pseudônimo, Mo Yan, que quer dizer “fique quieto” em chinês.
sobre o autor
Mo Yan, pseudônimo de Guan Moye, é um dos principais escritores da literatura chinesa contemporânea. Autor de contos e romances, seu livro Sorgo vermelho foi adaptado para o cinema em 1987, tornando-o muito conhecido na China. Em 2012, tornou-se o segundo escritor chinês a ganhar o prêmio Nobel de Literatura. Atualmente, seus livros têm traduções para mais de doze idiomas.ficha técnica
ISBN
978-65-5590-048-4
Número de páginas
128
Peso unitário
158 g
Dimensões
19.0 cm • 12.0 cm • 1.0 cm
Posfácio
Martin Walser
Orelha
Dora Ribeiro
Tradução
Amilton Reis
Projeto Gráfico
Flavia Castanheira, Paulo André Chagas
Idioma
Português
Encadernação
Brochura
Edição
2a. edição
Lançamento
17 de maio de 2026
